O Moleskine Male é um blog novo. Um projeto que visa compartilhar assuntos sobre arte, moda, música, design e algumas coisinhas a mais. Para nós é de suma importância que vocês, leitores e seguidores do blog, expressem o ponto de vista de vocês nos comentários, pois é disso que o blog se alimenta e se constrói. Vale informar que nós do Moleskine Male somos curiosos do universo artístico e fashion e o que compartilhamos aqui é justamente aquilo que constamos ser interessante e útil de alguma maneira. Sejam todos Bem Vindos!
"Amor vem de amor. Vem de longe, vem no escuro, brota que nem mato que dispensa cuidado e cresce com a mais remota chuva. Vem de dentro e fundo e com urgência. Amor vem de amor. Que não cabe, mas assim mesmo a gente guarda. A gente empurra, dobra, faz força, deixa amassado num canto, no peito, no escuro, dentro, ou larga pegando sereno. Amor vem de amor. Vem do pedaço mais feio, do mais sem palavra, do triste, vem de mãos estendidas. É tecido desfeito pelo tempo, amarelecido pelo tempo, pelo cheiro da gaveta fechada, pelo riscado do sol na madeira. Amor vem de amor. Vem de coisa que arrebata, vira chão, terra, cisco, resto, rastro, coisa para sempre varrida. É delicadeza viva forte violenta. Que faz doer, partir, deixar caído. Amor vem de amor. E dói bonito." (Guimarães Rosa)
Hoje passei a tarde em um evento de arquitetura que aconteceu aqui em Belo Horizonte, com a intenção de divulgar a segunda edição da Revista Parayba, produzida pelos jovens pesquisadores da Escola de Arquitetura da UFMG, lá conheci pessoas, conferi o trabalho e mais uma vez me dei conta de que a maioria dos meus amigos são estudantes de Arquitetura. Ironia ou não, acho extremamente exótico e legal isso. Bom, chegando em casa fui pesquisar algumas coisas relacionadas a essa área e me deparei com um artigozinho ótimo que integra a arquitetura com a arte, a filosofia e a literatura, traduzindo a essência desta profissão de maneira simples e apaixonante.
Quanto à arquitetura, é preciso compreender as forças por trás das formas. Arquitetura, pois, como matéria da filosofia, da literatura, das artes visuais; arquitetura, assim, como máquina fabricante de conceitos; o arquiteto, amigo do filósofo, do escritor, do artista, é também amigo do conceito. Ou seu traidor: melhor isso do que torná-lo pétreo.
Arte constrangida pela ciência, a arquitetura é física aplicada: "a forma vem, a gravidade empilha" – memorável frase de Helena Xavier. É, também, biologia aplicada: forma de pele necessária para a adaptação vital do homem ao ambiente. É geologia: o exoesqueleto humano na proposição do filósofo Manuel de Landa. Na prancheta, seja analógica ou digital, ela é geometria e cálculo, matemática aplicada. No canteiro, no agenciamento do trabalho dos operários da construção, a arquitetura é antropologia; nos canteiros das pobres metrópoles da “grande periferia”, ela é a arqueologia das mãos mais ásperas e dos rostos mais sofridos. Na extensão das cidades, a arquitetura se faz geografia e traz materialidade à história.
Rechaço absoluto ao ponto de vista que deseja à arquitetura o status de ciência do artificial, justamente em oposição as ditas ciências naturais. Nada mais natural que a arquitetura, e nada mais natural, ao homem, que a projetação, neologismo emprestado do italiano, compreendido aqui como teia contínua de ajustes necessários à dialética implicada ao homem e seu espaço.
Na tensão entre a invenção e a descoberta, entre a ilusão e a percepção, entre intuição e tradução, entre tradição e traição, a arquitetura é a obra dentro da obra dentro da obra. Eterna, etereamente, mise em abyme.
Desde este ponto de vista (que é, por natureza, pura relatividade), é preciso pensar as formas através das quais a arquitetura acontece. A idéia de projeto como intrincado cognitivo do pensamento: o contexto, o problema, a forma que soluciona um problema num contexto. A construção, os modos de produzir a arquitetura, implicações entre ideologia e tecnologias. Das coisas (intangíveis, situadas no domínio virtual) nascem coisas (tangíveis: com corporeidade no mundo real), livremente introduzindo a expressão de Bruno Munari, e então outro círculo, uma nova volta dialética. A expansão do campo dos possíveis: onda que se observa como partícula quando já outra onda se forma. Um verbo que funda um substantivo: construir uma casa, por exemplo.
Assim, o desenhador (o sujeito epistêmico da arquitetura), debruçado sobre um problema aparentemente banal – a casa para uma família composta por pai, mãe e dois filhos ainda crianças, que desejam gastar o menos possível, mas que a casa seja ampla, bem iluminada e arejada, que seja durável, fácil de manter, com possibilidades de se adaptar, que seja econômica em relação aos custos de água e energia, que seja bonita, um lugar para sonhar –, mas totalmente particular, ainda que absolutamente geral, saberia que não existe uma única, nem sequer uma melhor, solução: saberá que a casa é um continente que, por definição ontológica, está além do arquiteto, e o que o arquiteto pode almejar é, tão somente, uma aproximação.
Nada de novo. Sempre foi assim desde os bons tempos que só tínhamos o velho e bom rádio, música romântica invadindo corações carentes e solitários. Hoje, com a televisão mostrando amores impossíveis, paixões avassaladoras que sempre acabam dando certo no último capítulo, tudo leva ao desejo de viver essas emoções a qualquer preço. Tem ainda a Internet, que trouxe para a solidão amorosa de muitos o amor virtual. Novas tecnologias, novas possibilidades.
E o amor está cada vez mais no ar, na rede, nas ondas elétricas, cibernéticas etc. e tal. Difícil mesmo é encontrá-lo no coração das pessoas, mas isso é outra história, assunto para depois.
Hoje, depois de se ter banalizado quase tudo, inclusive a vida, o mais nobre dos sentimentos, imortal segundo muitos, vem sofrendo desse mal, coitado dele.
Confundido com paixão, alteração dos sentidos, instinto de reprodução, desejo sexual o pobre amor recebe de presente adjetivos, advérbios, vira substantivo composto para se tornar um grande amor, um amor sem fim, eterno, infinito e outros qualificativos que o justifiquem e amparem. Amor tem que rimar com dor, com flor, tem de ser doído, sofrido e, de preferência unilateral. Amor correspondido , raro, diga-se de passagem, não tem a menor graça. Amor gostoso tem que fazer sofrer, tirar o sono, e lá pelas tantas levar-se um belo pontapé no traseiro. Aí vira dor, dissabor, decepção e danos cardíacos.
Sem chance de durar para sempre esses sentimentos ditos amorosos, sucumbem na maioria das vezes. Batem de frente com outro tipo de amor, o amor - próprio, esse sim danado de se conter. Demora a se manifestar, mas quando aparece na jogada provoca reações até mesmo perigosas no amante desprezado. É o tipo mais perigoso de amor, pois se liga diretamente ao instinto de sobrevivência. Impulsionados por ele muitos sequestram, roubam e matam. Poucos conseguem sobreviver à solidão do abandono, a falta daquele amasso poderoso, daquele beijo que só o ser amado sabe dar.
E agora José?
Como viver sem os sininhos badalando nos ouvidos, a dorzinha de barriga, o friozinho no estômago. Como ouvir o Zezé Di Camargo e Luciano sem chorar? O mundo, antes primaveril e ensolarado vira em um inverno gelado e sem fim. A música mais ouvida passa a ser “Meu mundo caiu”. O ego despencou ladeira abaixo e a dor sai pelo ladrão. Um venenoso coquetel de emoções se apodera deste ser tão infeliz.
Ainda bem que dor-de-cotovelo tem cura. Um dia vem o socorro , não se sabe de onde. Deve ser do tal de amor-próprio, alerta o tempo todo, mas meio sem ação por conta da irracionalidade a que os sentimentos estavam sujeitos. E vêm os primeiros sinais de cura. Não era amor! Aleluia! Tratava-se de um sentimento forte, humano, irracional e estimulante, gostoso de sentir, mas que não se sustenta em si mesmo.O amor verdadeiro tem uma característica básica que é ser generoso, solidário e livre de dores e sofrimentos inúteis. É alegria, bem-querer e se sustenta em si mesmo.
As pessoas estão gritando, as
coisas, as músicas, as lembranças, o passado, o presente, o futuro, as cidades,
o mundo, os planetas, todos estão gritando pelo amor. Cadê o amor que não se
encontra mais nas pessoas e nos pequenos prazeres? Venho aqui protestar, soltar
a voz do coração. Quero o amor como ama
o amor, segundo Fernando Pessoa; Eu quero o amor grande de Drummond que cabe
nesta janela sobre o mar... o amor grande que cabe no breve espaço de beijar.
Quero o amor que faz bem para a saúde, o amor correspondido, como escreveu Vinicius de Moraes. Quero medir centímetro por centímetro do amor, mesmo que no
final eu descubra, como Victor Hugo, que amor é amar sem medidas. Quero amar sem
ter que aceitar tudo, amar atentamente para que não veja a falta de amor, como
ensinou Vladimir Maiakóvski. Quero
desprender das rédeas de qualquer sofrimento e fazer como Guimarães Rosas,
amar, e amar mais, depois de ter amado.
Quero, de acordo com Oscar Wilde, amar e ter a consciência de que é recíproco,
para assim poder sentir o conforto e riqueza à vida que nada mais consegue
trazer. Enfim, falta amor, falta
sinceridade, falta reconhecimento da parte dos outros em saber valorizar bem
aquele tal amor, em saber tratá-lo, confortá-lo e preservá-lo. No final, queria
que cada um tivesse a clareza das palavras de Clarice Lispector; Amar os outros
é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e
às vezes receber amor em troca.
Em 2012, abra o seu coração e
viva com mais amor! :)